segunda-feira, 15 de março de 2010

Ciao!

Primeiro post de Mar de Brumas. Aqui estão as crônicas prometidas. Comentem!


Asas no Céu

- Ele tá ali, dormindo.

- Dormindo? Será que não tá morto aquele bicho?

- Não, ele tá dormindo


Dia 24 de Janeiro de 2010. O auspicioso sol de fim de tarde deixa tudo claro, expõe a resposta dada pela dúvida do meu padrinho. Nós dois nos deparamos com um cadáver pobremente emplumado, os olhos pequenos, distantes e cinzentos; o corpo pacificamente imóvel em uma gaiola com detalhes curvos, muito parecida com outra que eu conheço.
Um pinto, não um pinto novo, um pinto adolescente, quase uma galinha. Um bichinho talvez incomum para se estimar, mas um bichinho alegremente estimado pelo meu sobrinho.Nestas situações, onde as obviedades naturais dos seres vivos aparecem, poderia se esperar uma atitude automática, tranquila e tão natural quanto o fato. Mas não somos nós que estamos observando pelo tubo de ensaio agora.

- Não conta nada pra ele, amor!

- A gente tem que contar Dari! A gente não pode esconder dele!

- Mas ele vai chorar, vai se sentir culpado.

- Sim, mas ele tem que ficar sabendo, mais tarde ele pode culpar a gente se não contarmos.

_ Ai, meu Deus!

A história, o tempo linear, as informações compiladas e publicadas, as que foram compiladas e queimadas, as que permaneceram desconhecidas; tudo isso que há a respeito do homem traria uma expectativa de que frente a fatores naturais e intrínsecos, em seu período individual de existência, ele com certeza agiria de forma espontânea, natural, sem dor. Mas isso é ver a coisa de fora, como uma máquina, como um texto técnico de caráter holístico, não aprofundado,sem grandes intenções, sem emoções. É extirpando o coração e colocando em seu lugar termos rebuscados,pesados, galantes, acompanhados de formas objetivas e cruas de se pensar, que o homem nega grande parte de sua essência, escolhendo a estrada da esquerda, ou da direita, ou vice-versa. O homem se esqueceu de pegar o caminho do meio.
As lágrimas rolam pela pele branca e suave do pequeno Pietro. Logo após a notícia ele agarra o pescoço do seu pai e solta gritinhos agudos de tristeza, altos o suficiente para atravessar o barulho e adentrar os domínios sagrados do silêncio. Nem todo mensageiro é odiado pelos deuses.O pequeno se afasta de tudo e todos, busca um canto onde pode chorar em paz, onde não há ninguém que possa perturbar, onde o silêncio e a calma dialogam, um lugar afastado do mundo, com portas espalhadas pelo mundo todo. Meu padrinho tenta conversar com ele, pede para que ele tenha calma e respire, pergunta se quer enterrar o seu pintinho. Ele diz que sim.
A cova minúscula (para um homem) engoliu a ave com uma paz inquietante. Pietro recortou a foto de um pinto muito parecido com o seu amiguinho, e escreveu, com a ajuda da mãe, um humilde epitáfio. A literatura dos epitáfios, se é que existe alguma voltada para estas manifestações artísticas, devido a situação extrema em que foram concebidas deveriam receber algum crédito, nunca recebeu uma obra tão profunda, sincera e crua. Um epitáfio único, um epitáfio que nunca vou esquecer. Lindo por sí só:


"O pinto está no céu. É do Pietro"

A tarde vira noite e depois de um tempo eu e Pietro já estamos brincando de gladiadores no colchão que vai me servir de cama na frente da TV. E esta tarde me ensinou o quanto o homem pode valer. Dando o valor certo, pra certos valores, o homem vale muito. Pensei também o quanto o mito do céu ainda é forte e verdadeiro para muitos de nós. Nenhuma ciência alcançou esse céu, nenhuma filosofia, ao menos nenhuma na qual alguém possa ter falado abertamente. Talvez haja uma forma de certificar isso, mas talvez seja forte demais para se poder falar, expressar. O que sei é que esse pobre pinto foi pro céu, e não há ciência que me prove o contrário. Talvez haja um céu pra cada um. Pinto ou gente.



O Peregrino da manhã


Ainda posso me lembrar do cheiro inspirador e extremamente estimulante de borracha nova que eu sentia no início de cada ano escolar. Lembro das manhãs limpas e quentes de verão, assim como as frias, escuras e fabulosas manhãs de inverno que me acompanhavam pelo caminho que me levava à escola, banhando minha imaginação com cenários bucólicos e fantásticos. Nesses momentos, eu me sentia o próprio Gandalf, peregrinando por vales e montes, pisando pelos campos frescos e úmidos, em busca do seu templo de conhecimento e seu altar próprio de sabedoria.

Pode parecer uma exaltação forçada ou uma propaganda para despertar nas crianças um interesse maior pela escola, mas era exatamente assim que eu me sentia quando ia para lá: um mago, um sábio, peregrinando em busca de maior sabedoria.

A cada fim de férias, eu me encontrava absolutamente impaciente e alegre (talvez um absurdo para um garoto entre 10 e 12 anos), contando cada segundo para que chegasse o primeiro dia de aula. Era mais que uma alegria momentânea, era um estado de consciência que durava boa parte do ano letivo e que, de repente, perdia seu fluxo, amortecia, amornava, deixando o jovem mago entediado e rabugento. Mas isso, felizmente, acontecia perto do fim de ano, quando as férias se aproximavam, prometendo tédio o suficiente para que eu me inspirasse no início do próximo ano.

Hoje, não peregrino mais do jeito que eu gostava: fico dormindo durante uma hora e meia em um banco nada confortável até chegar à universidade. Fico cercado de muitas pessoas que falam muito e conversam pouco, que não querem entrar na sala de aula, que querem ir para casa descansar sabe-se lá do que, que odeiam o que aprendem e querem muito ter um diploma. Talvez a falta daquele significado que a escola tinha para mim tenha feito com que eu mudasse meu curso para o turno da manhã. Eu sei que muitas pessoas vão continuar as mesmas, muitas coisas ainda vão ser como sempre foram, até mesmo as noites podem ser iguais, mas as manhãs não. Cada manhã é única, cada uma delas é diferente, e todas são belas. Comprei uma borracha nova nestas férias. Eu nunca vou usar, mas quero cheirá-la a cada manhã. Quem sabe assim eu volte àquelas sensações grandiosas e únicas. Quem sabe assim eu volte a peregrinar de verdade. Voltar de férias é isso para mim: peregrinar, caminhar em busca de sabedoria.